A história do berrante e sua importância no campo

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Antes do rádio, do celular e até das estradas asfaltadas, existia um som que ecoava pelos campos do Brasil e guiava homens, bois e comitivas inteiras: o berrante. Mais do que um instrumento, ele se tornou símbolo da vida boiadeira, da tradição sertaneja e da identidade do homem do campo.

Seu som grave e marcante atravessava quilômetros, anunciando chegada, partida e até perigo.

🌾 Origem do berrante no Brasil

O berrante chegou ao Brasil por volta do século XVII, trazido pelos portugueses, inspirado em instrumentos europeus feitos de chifre usados para comunicação no campo. Com o tempo, o instrumento foi adaptado à realidade brasileira e passou a ser confeccionado com chifres de boi, animal central na economia rural da época.

Entre os séculos XVIII e XIX, o berrante se popularizou especialmente nas regiões de:

  • Minas Gerais
  • Goiás
  • Mato Grosso
  • interior de São Paulo

Locais por onde passavam as grandes comitivas boiadeiras.

🐂 A voz do boiadeiro

Na época das longas viagens com boiadas — que podiam durar meses — o berrante era fundamental. Seu som servia para:

  • conduzir o gado
  • reunir animais dispersos
  • avisar sobre travessias de rios
  • comunicar chegada às fazendas
  • alertar perigos na estrada

Cada toque possuía um significado próprio, conhecido apenas pelos boiadeiros experientes.

🎼 Os principais toques do berrante

Com o passar do tempo, os sons ganharam nomes e funções:

  • Saída – início da viagem
  • Estradão – caminhada da boiada
  • Rebatedor – reunir o gado
  • Queima do alho – hora da comida
  • Floreio – toque livre, artístico
  • Despedida – fim da jornada

Esses toques formam até hoje uma verdadeira linguagem do campo.

🏕️ O berrante e a vida nas comitivas

Durante os séculos XIX e início do XX, milhares de boiadas cruzavam o Brasil levando gado do interior até centros consumidores. O berrante guiava essas jornadas, sendo ouvido antes mesmo da boiada aparecer.

Era comum ouvir no interior:

“Quando o berrante toca, o povo já sabe: boiada vem chegando.”

🎶 O berrante na música sertaneja

Com o surgimento da música sertaneja raiz, o berrante ganhou espaço nas canções, tornando-se símbolo de saudade, estrada e tradição.

Diversas modas eternizaram o instrumento, como:

  • “Boiadeiro Errante”
  • “Berrante de Ouro”
  • “Estrada da Vida”
  • “Tocando em Frente” (referências simbólicas da vida no campo)

O som do berrante passou a representar o chamado do sertão.

📻 Do campo para o rádio e para os palcos

A partir das décadas de 1950 e 1960, com a popularização do rádio, o berrante deixou de ser apenas instrumento funcional e passou a ser também artístico.

Torneios de berranteiros começaram a surgir em festas de peão, especialmente em Barretos, Goiás e Mato Grosso, valorizando a tradição.

🏆 O berrante hoje

Mesmo com a modernização do agro, o berrante permanece vivo:

  • em festas do peão
  • em rodeios
  • em desfiles de cavalgadas
  • em apresentações culturais
  • como símbolo do sertanejo raiz

Hoje, muitos berranteiros são reconhecidos como verdadeiros artistas da cultura brasileira.

Por que os bois seguem ou atendem o som do berrante?

Os bois não seguem o berrante “por entender a música”, mas por associação, instinto e hábito construídos ao longo do tempo.

Veja os principais motivos 👇


🎺 1. Associação sonora (aprendizado)

Desde bezerros, os animais passam a associar o som do berrante a situações específicas, como:

  • deslocamento do rebanho
  • hora da comida
  • início da caminhada
  • presença do boiadeiro

Com o tempo, o boi aprende que:

“Quando esse som toca, algo vai acontecer.”

Isso é chamado de condicionamento auditivo.

Assim como um cachorro aprende a vir quando o dono chama, o boi aprende a reagir ao berrante.


🧠 2. A audição do boi é muito sensível

Os bois possuem audição mais aguçada do que a humana, principalmente para sons graves e longos, exatamente como o berrante produz.

O som:

  • viaja quilômetros no campo aberto
  • não assusta o animal
  • não é agressivo
  • soa “natural” ao ambiente rural

Por isso, o berrante é muito mais eficiente do que gritos.


🐄 3. O berrante não causa estresse

Diferente de barulho alto ou abrupto, o berrante produz um som contínuo, firme e previsível.

Isso faz com que o gado:

  • não se assuste
  • não dispare em corrida
  • mantenha o ritmo da boiada

O boi reage melhor a sons constantes do que a ruídos inesperados.


🌾 4. Instinto de manada

O boi é um animal de grupo.

Quando os primeiros animais da frente respondem ao som do berrante, os demais simplesmente seguem, por instinto.

Ou seja:

  • um reage
  • os outros acompanham
  • a boiada inteira se movimenta

É o chamado efeito manada.


🛤️ 5. O berrante funciona como “guia sonoro”

Durante as longas comitivas, o berranteiro geralmente vai:

  • à frente
  • ou em ponto estratégico da boiada

O som funciona como uma referência de direção.

O gado segue o som assim como nós seguimos uma voz conhecida em meio à multidão.


📜 6. Tradição passada por gerações

Durante séculos, o mesmo método foi usado no Brasil.

Os bois que já tinham convivido com berrante ensinavam os mais novos pelo comportamento, mantendo o aprendizado vivo sem precisar de treinamento formal.

É uma tradição que passa:

👉 do boi velho para o novo
👉 do pai para o filho
👉 do avô para o neto


🎺 Por isso o berrante funciona até hoje

Mesmo com caminhões, cercas e tecnologia, o berrante ainda é usado porque:

✅ funciona
✅ é barato
✅ não agride o animal
✅ reduz estresse
✅ respeita o ritmo do gado

Por isso ele nunca deixou de existir.

🤠 Um símbolo que atravessa gerações

Mais do que um instrumento, o berrante representa:

  • coragem
  • estrada
  • tradição
  • identidade rural
  • respeito ao campo

Seu som continua ecoando na memória do Brasil, lembrando que antes das máquinas e da tecnologia, o campo se comunicava pelo vento, pela coragem e pelo chamado do berrante.

🎺 Quando o berrante toca, o sertão responde.

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