A erva-mate, que já foi chamada de “ouro verde” do Paraná no início do século 19, volta a ganhar protagonismo na economia estadual. Maior produtor do país, o Paraná vive um momento de reorganização e investimentos voltados a fortalecer a cadeia produtiva, ampliar mercados — inclusive no exterior — e aumentar a rentabilidade dos produtores. Somente em 2024, o Valor Bruto de Produção (VBP) da cultura alcançou R$ 1,3 bilhão.
Esse movimento se reflete na realidade de produtores como as irmãs Ângela e Ana Cláudia Zampier, que há três décadas cultivam erva-mate nos municípios de São Mateus do Sul e Rebouças, no Centro-Sul do Estado, região reconhecida com Indicação Geográfica (IG). Em uma área superior a 80 hectares, elas produzem cerca de 120 toneladas por ano. Para Ângela, a IG foi um passo importante, mas ainda é preciso avançar na valorização do produto no mercado.
“A certificação ajuda a preservar nossa história, mas precisamos mostrar nossos diferenciais para conseguir melhores preços”, afirma. Esse é justamente um dos focos de uma nova parceria entre a Invest Paraná e as universidades estaduais de Londrina (UEL) e do Paraná (Unespar), que busca tornar a cadeia da erva-mate mais competitiva.
O projeto conta com R$ 500 mil do Fundo Paraná, voltados ao aprimoramento de boas práticas agrícolas, rastreabilidade e modernização da produção. Paralelamente, foi lançado em novembro o Napi Erva-Mate: Inovação e Valorização, que reúne universidades, centros de pesquisa e o setor produtivo para desenvolver sistemas de cultivo mais sustentáveis, melhorar processos industriais e diversificar os usos da planta. O investimento nessa iniciativa chega a R$ 3,9 milhões, via Fundação Araucária.
De acordo com a professora Vânia de Cássia Fonseca Burgardt, da UTFPR, que coordena o Napi, a proposta é integrar todas as etapas da cadeia, do campo ao consumidor final. O objetivo é elevar a qualidade, reduzir contaminantes que dificultam exportações e garantir maior retorno ao produtor, especialmente o pequeno agricultor.
Na avaliação da Invest Paraná, uma das metas é dobrar o valor pago pelo quilo da erva-mate produzida no sistema sombreado — responsável por cerca de 70% da produção estadual. Caso isso se confirme, a renda dos produtores pode aumentar em aproximadamente R$ 230 milhões.
Hoje, o Paraná possui cerca de 30 mil produtores de erva-mate e colheu aproximadamente 900 mil toneladas em 2024, segundo o Deral. O Rio Grande do Sul produziu 283,6 mil toneladas, Santa Catarina 104,6 mil e Mato Grosso do Sul 760 toneladas, conforme o IBGE. Além de liderar em volume, o Paraná também apresentou o maior crescimento entre os estados produtores, com alta de 5,2% sobre a safra anterior.
No comércio exterior, o Rio Grande do Sul continua liderando, com US$ 79,98 milhões exportados em 2024. Já o Paraná vendeu US$ 12 milhões, subindo uma posição no ranking nacional e se tornando o segundo maior exportador, à frente de Santa Catarina. Uruguai, Argentina e Síria foram os principais destinos da erva-mate brasileira no período.
Para o economista Guilherme Gonçalves de Albuquerque, do Deral, a expansão da cultura tem impacto direto em regiões produtoras. Em municípios como Cruz Machado, por exemplo, a erva-mate responde por cerca de 25% da riqueza agrícola local.
A indústria também acompanha esse movimento. A Leão, subsidiária da Coca-Cola e líder no mercado de erva-mate tostada, comprou 7,2 mil toneladas em 2024 e ampliou sua atuação com o lançamento de produtos à base de mate verde, como chimarrão e tereré. Segundo a empresa, a estratégia reforça sua presença em um segmento que tem grande peso no consumo nacional.
Para fortalecer ainda mais o setor, o Estado e as universidades trabalham na definição de padrões de qualidade da erva-mate paranaense por meio de análises químicas e sensoriais, além da implantação de um sistema digital de rastreabilidade. Também está em andamento um reposicionamento de marketing, destacando a tradição e os diferenciais do produto do Paraná, que já chega a mercados como Alemanha, Estados Unidos, Uruguai e Argentina.
A Embrapa Florestas, integrante do Napi, contribui com pesquisas para desenvolver novas variedades da planta, com foco em maior produtividade, sabor mais suave e menor teor de cafeína. Essas características permitem ampliar o uso da erva-mate para além do chimarrão, do tererê e do chá, incluindo aplicações em bebidas energéticas, chocolates, farinhas, sucos, cervejas, cosméticos e até produtos farmacêuticos.
Com inovação, qualidade e novos mercados, o setor aposta que a erva-mate paranaense está pronta para viver um novo ciclo de crescimento — desta vez, com mais valor agregado e retorno ao produtor.
