Mesmo após o recuo anunciado pelo governo de Donald Trump em novembro, cerca de metade dos produtos do agronegócio brasileiro enviados aos Estados Unidos continua sujeita à sobretaxa de 40%. A lista inclui itens como pescados, mel, sebo bovino, uvas frescas e etanol. Caso essas exceções não sejam ampliadas, o prejuízo ao fluxo comercial em 2026 pode alcançar US$ 2,7 bilhões, segundo projeções divulgadas nesta terça-feira (9/12) pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A permanência das tarifas preocupa porque esses itens são altamente dependentes do mercado norte-americano e têm pouca margem para redirecionamento a outros destinos. Um exemplo é a tilápia brasileira: em 2024, 97,4% das vendas desse pescado tiveram como destino os EUA.
“Cerca de 45% do valor exportado do agro para os Estados Unidos em 2024 ainda está sujeito a tarifas adicionais. Se nada mudar, estimamos impacto negativo de US$ 2,7 bilhões em 2026”, afirmou Sueme Mori, diretora de Relações Internacionais da CNA, durante coletiva virtual.
A entidade também monitora os efeitos de novos acordos comerciais firmados pelos EUA com países como Japão, Reino Unido, Indonésia e Vietnã, além das tratativas em andamento com a China. Esses pactos, que incluem redução de tarifas, investimentos e compromissos de compra de produtos — majoritariamente agrícolas — podem influenciar diretamente a competitividade brasileira.
O Japão, por exemplo, prometeu elevar em 75% a compra de arroz americano. O Reino Unido assumiu o compromisso de adquirir US$ 700 milhões em etanol e abriu uma cota específica para carne bovina dos EUA. Já a Indonésia zerou tarifas sobre 99% dos produtos agropecuários americanos e estabeleceu compras de US$ 4,5 bilhões; o Vietnã, por sua vez, acordou aquisições de US$ 2,9 bilhões.
Segundo Mori, esses movimentos afetam o mercado global. “Quando um país firma compromissos de compra com os EUA, ele necessariamente reduz a demanda de outros fornecedores. Isso pode repercutir na nossa pauta exportadora”, explicou.
Apesar das restrições internacionais, o agronegócio brasileiro registrou crescimento de 1,7% nas exportações entre janeiro e novembro de 2025, superando US$ 155 bilhões. Os destaques continuam sendo soja em grão, carne bovina, café verde, açúcar e celulose. Carne bovina e café — ambos afetados pela tarifa americana entre agosto e novembro — tiveram seus embarques antecipados no início do ano, o que ajudou a amortecer os efeitos das tarifas. Ainda assim, o comércio bilateral recuou 4% no período, de R$ 10,9 bilhões para R$ 10,5 bilhões.
A China segue como principal destino do agro brasileiro, tendo aumentado suas compras em quase US$ 5 bilhões e ampliado sua participação para 33,5%. Em seguida aparecem União Europeia (14,7%), Estados Unidos (6,7%), Vietnã (2%) e Índia (1,9%).
União Europeia
Mori também comentou sobre a decisão do Comitê de Comércio Internacional da União Europeia, que aprovou salvaguardas agrícolas permitindo suspender temporariamente preferências tarifárias sobre itens importados do Mercosul quando houver risco para produtores europeus. Segundo ela, a medida não faz parte do que foi negociado no acordo Mercosul–UE, que deve ser assinado no dia 20, e não está alinhada às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“O acordo segue as diretrizes da OMC, o que não é o caso da medida aprovada agora pela UE. Além disso, o texto negociado prevê mecanismos de reequilíbrio, algo que defendemos junto ao governo”, afirmou.
Mesmo sendo interpretada por alguns negociadores como um gesto que viabiliza a assinatura do acordo, a decisão preocupa o setor brasileiro. “Essas salvaguardas tornam o mecanismo mais restritivo e podem prejudicar as exportações do Mercosul, incluindo as brasileiras. Precisamos acompanhar de perto”, disse Mori.
Ela reforçou que o dispositivo aprovado pelos europeus é unilateral e não foi discutido com Brasil, Paraguai ou Uruguai. “A proposta inclui gatilhos e salvaguardas que não aparecem no acordo. O que será assinado é o texto finalizado no ano passado. Essa nova medida é uma iniciativa interna da UE e não se sustenta dentro do capítulo de salvaguardas negociado”, explicou.
Para ela, a pressão de produtores europeus contrários ao acordo motivou a decisão. “A medida busca tranquilizar setores mais resistentes, que temem um aumento das importações de itens agropecuários sensíveis”, concluiu.
